Em
O Comércio de Baião

2026/08/27

ENTREVISTA A FILIPE FONSECA PRESIDENTE DA CONCELHIA DO PS BAIÃO

Destaque

- Filipe Fonseca: “O passado dá-nos responsabilidade. Não nos dá votos”

Filipe Fonseca, eleito recentemente presidente da Concelhia do PS Baião, passa a ser uma das principais vozes do partido, num momento particularmente exigente. Foi presidente de Junta, vice-presidente da Câmara e é hoje vereador da oposição. Mas, antes dos cargos, há um percurso ligado ao associativismo desportivo, cultural, recreativo e humanitário, assim como a Instituições Particulares de Solidariedade Social.


O Comércio de Baião (CB) — Com a sua eleição para presidente da Concelhia, passa a ser uma das principais vozes do PS Baião. Quem é, afinal, Filipe Fonseca?

Filipe Fonseca (FF) — Sou alguém profundamente ligado a Baião. Cresci aqui, fiz e faço cá a minha vida. Comecei muito cedo a participar na comunidade, inspirado pelo exemplo do meu pai.

Comecei pelo comércio local, passei pelo futebol, onde tive o orgulho de representar grande parte dos clubes do concelho e de trabalhar com jovens, fui colaborador da Santa Casa da Misericórdia de Baião, onde trabalhei com idosos e pessoas com deficiência. Integrei órgãos diretivos de associações, nomeadamente dos Bombeiros Voluntários de Baião, fui presidente de Junta em Ovil e na União das Freguesias de Campelo e Ovil. Entre 2021 e 2025 fui vice-presidente da Câmara e hoje sou vereador.

Trabalho numa instituição bancária, sou casado com a Sandra, tenho dois filhos, a Matilde e o Francisco, e uma família da qual muito me orgulho. Continuo a gostar das coisas simples: conviver com amigos, caminhar, correr, jogar padel, tentar jogar futebol e participar nas atividades da comunidade.

Talvez isso também explique a forma como vejo a política. Nunca a vi como uma atividade fechada sobre si própria. Para mim, política de proximidade é conhecer pessoas, perceber problemas e tentar resolvê-los.

CB — Não tem formação superior concluída. Isso alguma vez lhe criou algum complexo?

FF — Não, nunca. Tenho respeito pela formação académica e continuo a ter o projeto de tirar uma licenciatura. Foi sendo adiado porque a vida também é isto: trabalho, filhos, responsabilidades autárquicas e associativismo.

Nunca senti que um diploma, por si só, definisse a capacidade de alguém. Aprendi muito com a vida profissional, com autarcas, técnicos, dirigentes associativos e, sobretudo, com pessoas que sabem muito mais do que eu. A experiência ensinou-me que não precisamos de saber tudo. Precisamos de ter humildade para perceber quando não sabemos e procurar quem sabe.

CB — O PS perdeu a Câmara em 2025, depois de vinte anos de governação. Porque perdeu?

FF — Porque os baionenses quiseram mudar. E acho importante começar por aí, sem procurar desculpas. Depois de vinte anos de governação existia desgaste, naturalmente. Provavelmente não percebemos suficientemente a dimensão desse desejo de mudança e talvez tenhamos acreditado que o reconhecimento do trabalho feito seria suficiente para manter a confiança.

Prefiro olhar para uma derrota como uma oportunidade para perceber o que mudou à nossa volta. A pior coisa que o PS poderia fazer agora era concluir que estava tudo bem connosco e que foram simplesmente os eleitores que não perceberam.

CB — O que fez mal o PS?

FF — Acho que ouvimos menos do que devíamos. Quando se governa durante muito tempo, existe o risco de começarmos a acreditar que conhecemos suficientemente bem o território. Entretanto, as expectativas mudam e novas gerações começam a olhar para o concelho de maneira diferente.

Baião mudou muito nestes vinte anos. Felizmente. Mas isso significa também que os baionenses passaram a exigir mais. E nós talvez não tenhamos percebido essa mudança com a rapidez necessária.

CB — Qual é a sua responsabilidade nessa derrota?

FF — Tenho-a. Não vou participar durante anos numa equipa e, quando as coisas correm mal, dizer que a responsabilidade era dos outros. Tenho orgulho em quase tudo o que fizemos, mas também podia ter ouvido mais, percebido alguns sinais mais cedo e ajudado a explicar melhor determinadas decisões.

Se a derrota não nos obrigar a fazer essa reflexão, então não serviu para nada.

CB — Existe o risco de o PS passar demasiado tempo a falar do legado socialista?

FF — Existe. Uma coisa é viver permanentemente do passado, como se aquilo que fizemos nos desse algum direito adquirido sobre o futuro. Não dá. Outra coisa é aceitar que se apague a história recente de Baião.

Houve uma transformação muito profunda na rede escolar, no espaço público, nas respostas sociais, na cultura, no turismo, na proteção civil e nos equipamentos. Isso não desaparece porque perdemos umas eleições. Mas não podemos passar quatro anos a explicar às pessoas aquilo que fizemos.

O passado dá-nos responsabilidade. Não nos dá votos. O nosso desafio agora é mostrar que aprendemos, que percebemos os novos problemas e que somos capazes de apresentar respostas diferentes para uma realidade que também é diferente.

CB — O atual executivo tem apresentado projetos que o PS diz terem sido preparados pela anterior maioria. Onde termina a continuidade administrativa e começa a apropriação política?

FF — É normal que uma Câmara receba obras adjudicadas, candidaturas aprovadas, projetos em desenvolvimento e investimentos financiados. Uma instituição não pode começar do zero de quatro em quatro anos.

Se o atual executivo concluir bem uma obra que nós deixámos preparada, fico satisfeito. Quem ganha é Baião. Não somos uma oposição que deseja que alguma coisa corra mal.

Mas estou preocupado com o estado de várias obras. Há obras lançadas em 2025 que estão paradas e outras aprovadas e com financiamento garantido que não arrancaram, como o Centro Náutico de Ribadouro ou a requalificação da antiga Escola de Santa Leocádia. Preocupa-me também o silêncio sobre a área de acolhimento empresarial de Santa Marinha do Zêzere.

Ao mesmo tempo, não podemos criar uma narrativa em que parece que tudo nasceu depois de novembro de 2025. Há muito trabalho anterior que merece ser reconhecido. Com o tempo, perceberemos também aquilo que esta maioria pensou de novo e colocou no terreno por iniciativa própria. Esse será o verdadeiro teste.

CB — Como olha para o projeto “Baião Atrai”?

FF — Com alguma perplexidade. Baião precisa de atrair investimento, por isso nunca criticarei o projeto por existir. O executivo socialista tinha o “Via Verde Baião”, que procurava também ajudar os empresários a instalarem-se no concelho.

A ideia transmitida durante a campanha era a de uma estratégia praticamente pronta para avançar. Meses depois surgiu um grupo de trabalho e posteriormente um estudo para fazer diagnóstico e definir um plano de ação. Se estava tudo preparado para começar, vários meses depois a pergunta é simples: afinal, o que estava pronto?

CB — E o futuro Fórum Municipal do Tijelinho?

FF — Havia bastante trabalho feito. Não se tratava simplesmente de cobrir a feira, mas de criar um verdadeiro equipamento multifuncional, com melhores condições para os feirantes e capacidade para receber eventos durante todo o ano, incluindo espetáculos e eventos gastronómicos e vínicos.

Se os estudos existem, da minha parte não vejo qualquer problema em torná-los públicos. São estudos do Município, não do PS. As pessoas poderiam conhecer aquilo que estava pensado e comparar com a solução que o atual executivo vier a apresentar. Pode até ser melhor. O importante é que Baião fique com o melhor projeto possível.

CB — Considera positiva a aquisição da antiga Pensão Romana para instalar o Museu do Avesso?

FF — Claro que sim. A compra do edifício foi uma boa decisão. O Avesso merece um equipamento à altura da importância que tem para Baião. Agora falta conhecer o museu: qual é o conceito, o programa, como vai envolver os produtores e articular-se com o turismo e a restauração, quanto vai custar e quando estará pronto.

Comprar o edifício foi um passo importante. Mas um museu é muito mais do que um edifício. E muito mais do que uma promessa.

CB — Está preocupado com o projeto das 52 habitações protocolado com o IHRU?

FF — Muito. Não estamos a discutir um anúncio. Estamos a falar de 52 casas e de 52 famílias que poderiam ter acesso a habitação a preços comportáveis. Existe terreno e existe projeto, mas, pelo menos publicamente, deixou de estar na agenda do executivo.

Se existe um problema com o IHRU, expliquem-no. Se existe uma dificuldade financeira, técnica ou administrativa, digam qual é. Um projeto desta dimensão não pode simplesmente desaparecer da agenda.

CB — Até onde deve ir a Câmara na política de habitação?

FF — Até onde for necessário para corrigir aquilo a que o mercado não consegue responder sozinho. Podemos trabalhar com o IHRU, adquirir terrenos, infraestruturá-los, criar lotes para construção a preços controlados e estabelecer parcerias com privados para habitação a preços acessíveis.

Não se trata de a Câmara substituir os particulares. Trata-se de criar condições para que exista mercado. Não podemos passar anos a dizer aos jovens que queremos que fiquem em Baião e depois descobrir que não têm onde viver.

CB — Fala também em “dignidade do envelhecimento”. O que significa concretamente?

FF — Significa começarmos pela pessoa. Uma pessoa com 80 anos não deixa de querer escolher onde vive, com quem vive e como organiza a sua vida. Envelhecer com dignidade é poder ficar em casa se tiver condições, conseguir ir ao médico, ter mobilidade, não passar dias sem falar com ninguém e termos respostas para os cuidadores.

Temos comunidade, proximidade, instituições e uma escala humana que nos permite chegar às pessoas. Podemos fazer muito mais. A forma como tratamos quem envelheceu diz muito sobre aquilo que somos enquanto comunidade.

CB — E como se fixam os jovens em Baião?

FF — Não há medidas milagrosas. Precisamos de emprego e de habitação, mas hoje isso já não chega. Uma família olha para a escola dos filhos, saúde, cultura, desporto, espaço público, deslocações e conciliação entre trabalho e vida familiar.

Baião tem argumentos muito fortes: natureza, segurança, comunidade, proximidade e qualidade ambiental. O desafio é juntar essas vantagens a oportunidades profissionais, habitação e bons serviços.

Eu não quero que as pessoas fiquem em Baião porque não conseguiram sair. Quero que possam ficar porque escolheram viver aqui.

CB — Defende uma Concelhia mais aberta. O PS fechou-se sobre si próprio enquanto esteve no poder?

FF — Talvez tenha acontecido. Um partido que governa muito tempo corre o risco de falar demasiado com as estruturas que já conhece. Quero que falemos com jovens que nunca participaram numa reunião política, com empresários desiludidos connosco, com pessoas que votaram PSD e com pessoas que não votaram em ninguém.

Não quero perguntar-lhes “porque não votaram no PS?”. Quero perguntar: “o que falta em Baião?” Essa conversa é muito mais interessante e, provavelmente, muito mais útil.

Também vejo com satisfação a aproximação de vários jovens ao PS. Não quero um partido dividido entre “os antigos” e “os novos”. Há experiência acumulada e há agora uma energia nova que deve ser aproveitada. O desafio é juntar essas duas forças.

CB — O PS quer recuperar a Câmara em 2029?

FF — Claro que quer! Seria pouco sério dizer o contrário. Queremos voltar a merecer essa confiança.

Mas não quero que passemos o tempo até 2029 numa campanha eleitoral permanente. O caminho para 2029 começa agora, mas começa pelo trabalho: pela qualidade da oposição, pelas propostas que apresentarmos e pela capacidade de reconhecer aquilo que estiver bem e denunciar aquilo que estiver mal.

CB — E essa alternativa será liderada por Filipe Fonseca?

FF — Hoje essa decisão não existe. Não vou criar uma candidatura três anos antes porque alguém me faz a pergunta.

Tenho uma responsabilidade muito concreta como presidente da Concelhia: organizar o PS, apoiar os nossos autarcas e vereadores, abrir o partido à sociedade e ajudar a construir um projeto para Baião. Quando chegar o momento, o Partido Socialista fará essa escolha.

CB — Mas não exclui ser candidato.

FF — Nem excluo nem anuncio. Hoje não é isso que me preocupa. Há demasiado trabalho para fazer antes.

CB — Tem dois filhos. O que gostaria que encontrassem em Baião daqui a dez ou quinze anos?

FF — Gostava que pudessem escolher ficar. Que possam estudar, conhecer outros lugares e trabalhar fora se quiserem. O mundo é grande e eu nunca lhes diria para não o conhecerem.

Mas gostaria que, quando pensassem onde construir a sua vida, Baião fosse uma possibilidade real. Que não tivessem de sair porque aqui não encontram trabalho, casa ou oportunidades.

Se conseguirmos construir um Baião onde os nossos filhos podem escolher ficar, acho que, como políticos, teremos feito uma parte importante do nosso trabalho. Se escolherem sair porque o mundo se tornou a sua casa, então teremos feito um bom trabalho como pais.

CB — E quando terminar este mandato à frente da Concelhia, o que gostaria que um baionense dissesse sobre Filipe Fonseca?

FF — Que estive presente. E talvez acrescentasse outra coisa: que fui sério, que ouvi, que não fugi às perguntas, que soube reconhecer quando os outros fizeram bem e que tive a coragem para falar quando achei que alguma coisa estava errada.

Não espero que toda a gente concorde comigo. Isso nem seria saudável. Mas gostava que soubessem que, concordando ou não, aquilo que fiz foi porque acreditava que era o melhor para Baião, sempre por Baião.

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