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Um grupo de oito pessoas de Baião, onde está incluído o padre Mário João, pároco de Campelo, Ovil, Loivos do Monte e Grilo, vai em missão a Moçambique, para dar formação e apoiar na recuperação de um edifício que acolhe várias valências da missão moçambicana.
A Missão Mueria vai decorrer entre o dia 11 de abril e 04 de maio e levará na bagagem, entre outros, duas enfermeiras e uma técnica de farmácia, que irão partilhar os seus conhecimentos na área da saúde e nutrição. A missão tem, ainda, a vertente da educação e da pastoral, esta última a cargo do padre Mário João.
Em declarações ao jornal “O Comércio de Baião”, o padre Mário João contou que a missão surge de um desafio por ele lançado à comunidade e que engloba, não só a Missão Mueria, mas também a Missão Baião, envolvendo 27 pessoas.
“Para a Missão Mueria vai uma pessoa de Ancede, uma de Loivos do Monte, cinco de Baião e eu, que sou de todo o mundo”, gracejou o padre Mário João.
Para o pároco, Moçambique e Mueria não são destinos desconhecidos, dado que foi nesta última que esteve seis meses, juntamente com dois padres moçambicanos e três irmãs de Jesus, antes de vir para Baião.
Conhecedor da realidade do país e das missões, o padre Mário pretende que o grupo perceba a dinâmica de lá para depois poder fazer pontes em próximas missões.
“A ideia é participarmos na vida deles em termos de formação, na área da saúde, educação e na pastoral”, frisou, lembrando que a missão conta com dois padres moçambicanos, da Diocese de Nacala, e as irmãs de Jesus.
Em Mueria há, também, uma escola secundária, onde o ensino secundário começa no sétimo ano e este ano será ministrada, pela primeira vez, a 11.ª classe.
“As instalações onde funciona a escola eram de uma antiga escola agrária e são muito limitadas”, salientou o pároco, divulgando que este ano se iniciou, em Mueria, um lar feminino, que acolhe meninas durante a semana para irem à escola, dado que a área da missão é muito grande com dezenas de quilómetros de distância.
“A missão tem, também, um lar dos rapazes, que vivem lá, alimentam-se e vão à escola. A missão não tem fundos para ajudar, tem de ser as famílias a apoiar”, explicou.
O grupo de Baião leva nos planos a ajuda na recuperação da Casa dos Leigos, que é chamada de Casa Salama, “que quer dizer bom dia, estás bem?”, explicou o pároco. O edifício tem uma lavandaria, o centro de nutrição e dois armazéns da missão.
“A nossa ideia é ajudar a recuperar o telhado desse edifício, que está muito degradado e entra chuva”, disse o padre Mário João, acrescentando que a missão moçambicana tem um centro de nutrição e as irmãs, todas as sextas-feiras, atendem mães que vão com problemas de desnutrição dos filhos e com problemas nas mamas, devido à amamentação.
“É-lhes dado suplemento de leite para os bebés e, a partir dos seis meses, uma papa enriquecida para reforçar a alimentação das crianças”, contou o pároco.
Mas é na formação que o grupo vai mais focado, embora na área da educação não tenho sido possível integrar nenhum professor.
“Nesta fase não conseguimos levar professores, mas todos vão ajudar”, sublinhou, avançando que “o grupo está ainda aberto a quem queira ir e reúne aos sábados, às 21:00, na sala da casa paroquial. A próxima reunião é dia 17 de fevereiro”.
Sobre a educação e a escola em Moçambique, o pároco refere que é “um desafio”, pois os alunos não têm cada um o seu manual escolar, nem os professores têm manuais escolares.
“É muito difícil estudar assim. Havia uma biblioteca e os alunos iam à biblioteca consultar os manuais”, disse.
Questionado sobre a forma da comunidade poder ajudar, o padre Mário João ressalva que “é preciso ter um bocadinho de cuidado com o ajudar, porque se pode ajudar, mas sempre comprometendo a outra parte. Só despejar dinheiro ou bens não ajuda nada, faz ainda pior”.
GRUPO VAI ANGARIAR FUNDOS PARA A VIAGEM E PARA RECUPERAR O EDIFÍCIO
Para que o grupo de Baião parta em missão vai ser necessário apoio e uma “das grandes ajudas veio da Câmara Municipal de Baião que irá apoiar as viagens de avião”, salientou o pároco, lembrando que “depois o grupo tem a deslocação, alimentação e estadia”.
“Sem carro não conseguimos percorrer todas as distâncias. A missão só tem um carro e um grupo de oito pessoas para ir a algum sítio fica complicado. Depois temos a alimentação e o alojamento, que nesta fase é para isso que precisámos de dinheiro, bem como para o edifício que queremos ajudar a recuperar, cujo primeiro orçamento apresentado, ainda sem mão de obra, rondava os seis mil euros”, adiantou.
Para conseguirem as verbas necessárias para a viagem, estadia e intervenção no edifício, o grupo tem previstas três campanhas. A primeira é a participação na Feira do Fumeiro e do Cozido à Portuguesa de Baião, com uma barraquinha e venda de rifas naquele certame, a segunda é fazer um ofertório num fim de semana, nas missas do concelho, a reverter para a missão, e a última uma campanha de angariação de fundos junto das empresas do concelho.
É a primeira vez que a missão em Mueria vai acolher oito pessoas e o grupo vai ter de levar roupas de cama e tolhas, para usar e para fazer as mudas. “É uma forma de não subcarregarmos a missão”, asseverou o padre Mário João, garantindo que “esta será a primeira missão de muitas e o sonho era trazer as pessoas de formação cá, aprender com o grupo baionense cá para levar para lá”.
Sobre a possibilidade de enviar dinheiro e bens, sobretudo material escolar, dada a escassez de manuais, o padre Mário João referiu que “é tudo uma ilusão”.
“Quando estive em Itoculo fizemos uma campanha, uma bolsa de pano, que continha dois cadernos, uma caneta, um lápis, uma afia e uma borracha e tudo ficou por menos de 1,50 euros. Aqui não se compra por esse valor e depois, quando comprámos lá pomos a economia de lá a funcionar. Dou-lhe um exemplo simples, que conto com muita alegria. Em 2020 entregamos às crianças da primeira classe, que eram mais de 5.500, as bolsas referidas. Nós encomendamos as bolsas a um mestre alfaiate de lá e, a partir do dinheiro que ele ganhou nas bolsas, casou, fez casa, montou uma oficina com as máquinas de costura e comprou uma máquina de costura elétrica, pois só tinha manuais. Conseguiu organizar a sua vida a partir deste projeto. Ganhou autonomia para ele e para a família. Por isso é importante a formação para que eles possam dar este salto”, contou o padre Mário João, acrescentando que “dar dinheiro não funciona, acaba e eles vêm pedir outra vez à porta. Há muitos projeto lá que têm tudo para serem bons projetos, sobretudo na área da agricultura”.
O grupo de Baião vai levar, sobretudo formação, mas o pároco acredita que “vai trazer muito de lá”.
“Acredito que sim, não vão dizer coitadinhos deles lá, que nós aqui é que estamos bem, mas há muitas coisas aqui que nós minimizamos. Gastamos muitas energias a lamentarmo-nos de coisas que, realmente, não têm interesse nenhum. Temos de agarrar as coisas que temos e seguir em frente. Ao grupo que vai eu disse que o maior exercício que temos de fazer é o exercício da impotência: é ver, sentir, chorar e não querer resolver. O que posso dar é ferramentas para as pessoas agirem de maneira diferente, se eles utilizam ou não, fica do lado deles”, indicou, exaltando:
“Aquele povo precisa de se sentir amado, valorizado e isso pode fazer toda a diferença. A nossa grande missão não é levarmos coisas, é levarmos o coração e sermos capazes de amar, sem queremos resolver nada. Podemos dizer-lhes qual a forma de resolver. É quase como os pais para os filhos, os pais que fazem tudo aos filhos não estão a criar filhos, para um filho saber andar tem de cair”.
E continuou: “Quando chega algum europeu lá eles sentem-se valorizados, vão por eles, nós vamos fazer 11 horas de avião até chegar a Maputo, mais duas horas para chegar a Nampula, mais três horas de carro para chegar a Mueria e depois lá muitas horas para chegar à comunidade deles, para estar com eles. Não é para ir buscar nada, não é para escavar para tirar diamantes, é para estar com eles e isso é que faz toda a diferença. Eles têm muita gente que vai para os explorar, para os roubar e ter gente que vai só para estar com eles e estar com eles por causa deste Jesus, que nos faz fazer coisas extraordinárias”.
MISSÃO BAIÃO AJUDA PESSOAS IDOSAS MAIS ISOLADAS
A par da Missão Mueria, está em curso a Missão Baião, que visa chegar a idosos isolados e dar-lhes apoio.
“O que percebemos é que há uma grande percentagem de pessoas em Baião com muita idade e muito sozinhas em casa”, começou por explicar o padre Mário João, frisando que “algumas são limitadas pelo peso da idade e outras por doenças”.
“Os nossos jovens já começaram e, aos sábados de tarde, grupos de três pessoas vão fazer visitas a estas pessoas. Conversam com elas, sobretudo ouvem-nas, disponibilizam-se para irem fazer recados e, se têm pessoas a cuidar delas, ficam lá a tarde de sábado para que essas pessoas possam ir fazer outras coisas ou descansar um pouco”, adiantou.
Outra iniciativa da Missão Baião é trazer à missa as pessoas que sentirem vontade de sair das suas casas para irem à igreja.
“Cada um nos seus lugares vai tentar perceber se alguém tem vontade e oferecer o transporte para os trazer até aqui”, disse o pároco, adiantando que “as ideias para ajudar são muitas, mas o grupo quer dar um passinho de cada vez, para chegar a todo o concelho”.