2026/04/13
Jornal “O Comércio de Baião” (CB) - O grupo dos Andarilhos foi fundado em 1991, ou mais tarde?
João Paulo Borges (JPB) - A fundação inicial é de 1991, com elementos dos quais eu nem fazia parte. Foi um grupo mais informal, para fazer umas brincadeiras, umas noitadas de Reis, algumas atividades nas romarias. O projeto acabou por terminar por causa da vida de cada um, mas em 1997, já regressados da academia, decidimos recriar novamente uma banda que inicialmente nem se chamava Andarilhos, mas sim ‘Ecos da Aboboreira’.
CB - Era um nome alternativo?
JPB - Sim, as pessoas é que foram sugerindo: "Vocês deviam chamar-se Andarilhos". Foi nessa linha que decidimos alterar o nome em 1997. Com esse nome, começámos a atuar diversas vezes, com pessoal da terra, formalizámos posteriormente a associação em 2001, que é uma das associações culturais mais antigas registadas atualmente.
CB - Desde aí, que tipo de trabalho tem sido desenvolvido?
JPB - A Associação Musical dos Andarilhos tem vindo a trabalhar desde 2001 neste projeto. Já lançámos três discos, embora neste momento não estejamos focados em discos, mas sim em músicas, das quais temos cinco prontas para sair acompanhadas de videoclip.
CB - Então esta é a evolução do grupo desde a criação formalizada, certo?
JPB - Exato. Em 2006 ganhámos um festival em Portugal, o Eurofolk, que nos permitiu representar o país na Europa, concretamente em Málaga. Ficámos em segundo lugar, atrás de uma banda italiana, que despertou em nós um interesse maior pela música de identidade.

CB - Que tipo de música os inspirou?
JPB - A banda italiana venceu o festival com uma versão de Tarantela, uma música tradicional deles que estava a cair em desuso. Eles recuperaram essa música, dando-lhe novos sons e vivências. Hoje, a Tarantela é um símbolo nacional italiano reconhecido por todos. Na nossa cultura, conhecemos essa música até através de telenovelas antigas, mas ela tem ganho um novo impulso, e é essa a linha que queremos seguir, no nosso trabalho com a chula.
CB - Que trabalhos têm vindo a desenvolver nesse sentido?
JPB - Temos sido desafiados a trabalhar neste tipo de projetos e contamos com parceiros para tal. Já realizámos eventos, como o festival da Chula da Michelândia. São coisas que fazem parte da nossa origem e depois do nosso género. Quando tocamos, o público fica entusiasmado e sente aquela música como sua. Queremos avançar mais nesse sentido, mas também estamos a trabalhar muito em originais, desafios que nos apresentam, e músicas regionais.
CB - Fizeram recolhas musicais na região?
JPB - Não propriamente recolhas, são intervenções pontuais, mais ligadas à poética e ao texto do que à música, pois esta já está muito bem documentada. Tivemos o Giacometti, que fez recolhas aqui, o Armando Leça, cujas gravações de 1938 estão disponíveis no YouTube, com excelente qualidade de som. Também o Agílio Pereira documentou toda esta região, abrangendo zonas como Resende, Cinfães e Baião.
CB - Portanto, há um património etnomusicológico importante, não é?
JPB - Sim, temos ainda o José Alberto Sardinha com as Tunas de Marão, Pires de Lima, entre outros. Eles deixaram um legado que nós adaptámos à modernidade e à nossa visão. Isso é uma questão de criatividade e originalidade, que depende de cada um de nós.
CB - Essa adaptação é feita com base em tecnologia ou inteligência artificial?
JPB - Não é uma plataforma de inteligência artificial. Se perguntássemos a uma plataforma para criar uma sequência, ela praticamente não mudaria nada. Nós é que, ao criar música hoje, temos desafios contínuos. Por exemplo, o escritor baionense António Mota, amigo dos Andarilhos, desafiou-nos a tocar um tema dele, chamado "Vem Comigo", que está patenteado e é de sua autoria. Já o interpretámos várias vezes.
CB - É interessante essa fusão de experiências?
JPB - Muito interessante. Fazer parcerias com pessoas que estão no mercado e conhecem bem o desenvolvimento das coisas enriquece-nos muito.
CB - Que outros projetos destacaria na trajetória dos Andarilhos?
JPB - Fizemos vários ao longo dos anos, como do Natal aos Reis da Rota do Românico, e o Malhão HotLife. Este último procurava modernizar a batida do malhão e dar-lhe uma nova vida. Realizámos parcerias, atuámos em vários pontos e monumentos do Românico, o que resultou muito bem. Fomos ainda convidados a trabalhar com a Antena 1, onde apresentámos do Natal aos Reis, e gravámos na Serra da Aboboreira, que nos é muito significativa, especialmente Almofrela.

CB - Como conciliam o trabalho com pessoas que não são da região?
JPB - Tentamos sempre que o trabalho seja próximo do que é nosso, da nossa serra. Mesmo os amigos que são de fora acabam por transportar esses ares para níveis diferentes. Como referi, temos o desafio do António Mota e temos que ponderar, porque hoje tudo acontece muito rápido e precisamos de tempo para criar. A criação, muitas vezes, é feita em conjunto, mas raramente isso acontece espontaneamente. Ultimamente tenho sido eu e o Rui Santos a criar os originais, sempre baseados em melodias ou ritmos tradicionais, trabalhando com gente da região.
CB - O importante é não parar?
JPB - Sim, é um trabalho desafiante e exigente. É necessário rigor para atingirmos certos níveis. Isto não sustenta financeiramente ninguém, nem serve como complemento. A Associação Musical dos Andarilhos complementa-se com o trabalho de recriação histórica, o qual gera algum rendimento. Atualmente estamos mesmo a fechar esse ciclo para dedicar mais tempo aos Andarilhos, na criação de um novo concerto, com um conceito diferente e apenas cinco músicos, o que é um grande desafio e requer profissionalismo.
CB - E o rigor acaba por afastar membros do grupo?
JPB - Por vezes, sim, mas gostávamos que todos estivessem connosco. No entanto, sabemos que temos que avançar com rigor diário, com as novas tecnologias, porque sem isso é complicado trabalhar. Existem aspetos que nos incomodam, mas estamos focados em festivais e encontros. Temos muito trabalho com o Inatel, uma entidade que nos desafia constantemente, o que é inédito, pois somos nós quem normalmente pede. O município de Baião tem sido um parceiro sempre presente, com elementos apaixonados pela chula, que tratamos no âmbito da colaboração. O novo executivo, o processo está adiantado para dar continuidade a este trabalho. Os Andarilhos sempre foram e continuarão apolíticos, sem vínculos partidários. Cada um tem as suas opiniões pessoais, mas o grupo sabe exatamente onde está e para onde caminha, não se envolvendo nessas questões, sempre foi assim, e é essencial para Baião, que tem o seu nome vincado neste projeto.
CB - Apesar de nos últimos tempos não participarem no Byonritmos, mantêm a disponibilidade para voltar a participar?
JPB - A nossa prioridade é que a identidade cultural do grupo esteja refletida no trabalho que realizamos, com encontros de pessoas locais e de fora, e queremos reativar o festival Byonritmos, do qual fomos parceiros fundamentais, apesar de não o sermos oficialmente. Mas sim, por questões estratégicas e de disponibilidade, não estivemos recentemente, mas sempre que quiserem estaremos presentes. Estamos a ser desafiados pela Antena 1, pela RTP, e queremos voltar com força, mas de uma forma séria e nobre, e não apenas para divertir, embora isso faça parte, claro. Não podemos é estar todos os dias a fazer o mesmo, pois é necessário equilíbrio.
CB - Já há seguidores para garantir a continuidade do projeto?
JPB - Parece que sim, já começam a aparecer. O projeto dos Andarilhos não é de uma pessoa nem de uma ideia isolada, está formatado para determinada resposta. Cada elemento casa-se com essa responsabilidade. Eu faço o meu trabalho, os outros fazem o deles. Há muita gente em Baião que gosta dos Andarilhos e da nossa música, e queremos continuar a inspirar essa comunidade.
CB - Atualmente, quem são os membros principais do grupo?
JPB - O núcleo principal é formado por cinco músicos: João Paulo, Rui Santos, Sérgio Salgueiro, Sara Silva e Helton Arruda. É com este grupo que trabalhamos, chegando a ensaiar até às duas da manhã no concelho de Valongo, que é central para todos, pois somos de locais diferentes como Baião, Santa Maria da Feira, Guimarães e Vila Nova de Gaia. Encontrámos um estúdio amigo em Valongo e é aí que trabalhamos.
CB - Como será a evolução futura do grupo?
JPB - O nosso foco é trabalhar a chula, desenvolver projetos e envolver a comunidade. É isso que nos mantém motivados. Vamos iniciar novos trabalhos e aceitar desafios. Já realizámos um projeto anterior no local Michelândia, mas agora queremos trazer as pessoas a Baião, onde elas podem desfrutar de melhor comida, melhor bebida e ouvir a melhor música. Pretendemos oferecer novas vivências e diversidade para que, em conjunto, todos aprendam, tal como nós aprendemos, através do contato com outras pessoas.
CB - Existe alguma receita para o sucesso do vosso trabalho?
JPB - Não há uma receita milagrosa. São muitos anos a ouvir músicas de diferentes partes do mundo, o que nos ajuda a perceber o valor do nosso património. Temos de saber dar e incluir toda a gente neste processo para garantir continuidade e modernização no futuro.
CB - Em relação ao estilo musical, como lidam com as tradições?
JPB - Não somos fundamentalistas no canto e na instrumentação. Temos um repertório definido e registado, e se conseguimos criar coisas novas a partir disso que se enquadrem na vivência de cada um, ótimo.
CB - Uma última palavra.
JPB - Viva Baião! É o nosso lema e não tem preço.