2026/03/08
O glorioso 8 de março – um dos dias com mais história do ano, história de luta e de conquista - consagra a ascensão da Mulher na via da sua afirmação e dignificação, da sua rotura com os parâmetros da constrangedora sociedade patriarcal que durante séculos e séculos oprimiu e escravizou a Mulher em todos os cantos do Mundo.
Nesse processo histórico, sociedades houve melhores que outras para a condição existencial da mulher.
Mas seria verdadeiramente só a partir da Revolução Francesa de 1789 que a Mulher pôde aspirar a uma emancipação efetiva.
O século XIX vai trazer o martelo demolidor que quebrará as anacrónica grilhetas opressivas que obstaculizavam a libertação da Mulher.
O movimento operário, na sua imparável vaga de greves e manifestações, sempre em crescendo, arrastou também para a luta reivindicativa a Mulher, forçada a entrar no mundo laboral para fazer face ao pauperismo e à subalimentação quotidianos.
As greves, protestos e manifestações organizadas por mulheres sucedem – se, ancoradas no processo geral de luta dos trabalhadores pelos seus direitos económico – sociais.
Múltiplas razões confluíram para esses intrépidos combates femininos.
Cumpre ressalvar entre outras: a desigualdade de género e a discriminação salarial em relação ao homem ( sem respeito pelo critério “trabalho igual salário igual”); os baixos salários auferidos, especialmente pela mulher; a pobreza extrema e a total ausência de assistência médica e social; a excessiva carga horária – 14/16 horas por dia, seis dias por semana, podendo incluir os domingos; falta de condições de segurança no trabalho; direito de votar e serem eleitas - luta comum do movimento operário feminino e das sufragistas inglesas do século XIX.
Aurore Dupin ganhou dignidade e grandeza histórica ao ter tido a coragem de abandonar o marido bruto e agressor, quebrando os espartilhos das convenções moldadas pelos obsoletos valores patriarcais.
Mudou o nome para George Sand, e, enquanto escrevia os seus maravilhosos livros, incorporou – se nas lutas do movimento operário em ascensão, lutando, com destemida valentia, de armas na mão, nas barricadas de Paris, durante a Revolução de 1848, ano em que Marx e Engels davam à estampa a obra mais marcante do século XIX – O Manifesto Comunista, que viria a abalar os alicerces da exploradora sociedade capitalista.
Na vaga de greves, reclamações e manifestações, levada a cabo pela heróica ação da Mulher, cumpre ressalvar as manifestações de 1857, nos EUA, ocorridas a 8 de março desse ano.
Pelo que, em 1910, a sindicalista comunista Clara Zetkin propôs, em Copenhaga, a criação de um dia dedicado à Mulher, não sugerindo, porém, nenhuma data concreta para a realização desse evento progressista.
Assinou esta proposta de dimensão histórica universal no âmbito de uma conferência da Segunda Internacional Socialista ( Comunista), que havia sido fundada por Engels em 1889, já após o falecimento do seu genial companheiro de luta, o filósofo Karl Marx, principal impulsionador dos combates reivindicativos do movimento operário internacional, o homem a quem os trabalhadores do Mundo inteiro mais devem.
Para além de Clara Zetkin, outra alemã espantosa, de costela polaca, a revolucionária Rosa Luxemburgo, desempenhou um papel fulcral nas lutas das mulheres.
De baixa estatura, mas com indómita bravura e excelsa capacidade de liderança, a notável teórica do marxismo( que viria a ser brutalmente assassinada pelo Império Alemão em 1919) bateu – se com denodo pela melhoria das condições de vida das mulheres, luta que desenvolveu enquanto também pugnava, a par das sufragistas inglesas, como Mary Wollstonecraft, pelo direito de voto para as mulheres de então, arbitrariamente excluídas de qualquer participação em atos de livre escolha sobre assuntos que lhes diziam intimamente respeito.
Em 25 de março de 1911, um acontecimento trágico ensombrou a cidade de Nova Iorque, com a ocorrência de um pavoroso e descontrolado incêndio que devastou uma fábrica têxtil: o fogo irrompeu nos pisos superiores do edifício onde funcionava a Triangle Shirtwaist, provocando uma pungente tragédia com a morte de mais de 145 pessoas, sendo que mais de 125 delas eram mulheres. A maioria das vítimas foram jovens imigrantes de origem judia e italiana.
As condições em que a fábrica laborava eram horrendas e absolutamente inaceitáveis: presença de materiais têxteis inflamáveis, iluminação a gás, permissão de fumar e total ausência de extintores.
Em tais circunstâncias, o fogo lavrou célere e terrificamente: oitenta e quatro mortos no incêndio e sessenta e dois mortos na precipitação das alturas em desesperada busca de salvação.
Para mais, o elevador, sobrecarregado de fugitivos em pânico, parou, procurando alguns escapar pelas condutas.
Além disso, as duas saídas possíveis haviam sido fechadas do lado de fora pelo patrão, para forçar as trabalhadoras a evitarem pausas no trabalho, num dos casos, e, no outro, para, alegadamente, impedir que as operárias cometessem furtos de material têxtil. As possibilidades de fuga eram quase nenhumas e poucos sobreviventes foram encontrados pelos esforçados bombeiros.
Com a eclosão da I Guerra Mundial, o movimento operário intensificou as suas lutas, aliando às suas reivindicações económicas, políticas e sociais o objetivo de ver alcançada a paz entre as potências beligerantes.
Na Rússia, irrompe, em finais de fevereiro de 1917 ( segundo o calendário Juliano então em vigor naquele imenso país euro – asiático), uma vaga tumultuosa de greves e manifestações que farão desencadear a Revolução de Fevereiro e a subsequente queda e abdicação do amorfo mas brutal Czar Nicolau II.
Essa tremenda vaga grevista incluía greves contra a carestia, o desemprego, a guerra e pela conquista de direitos.
Essa onda de combate agitado que prosseguia na Rússia, após a Revolução de Fevereiro ( 8 de março no calendário gregoriano, que viria seguidamente a ser adotado), conduziria aos “ Dez Dias que Abalaram o Mundo” ( Revolução de Outubro, liderada por Vladimir Lenine), com a dedicação de um dia à Mulher, precisamente o 8 de março, estando subjacentes a essa histórica e épica conquista as comunistas alemães Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo.
A russa Alexandra Kollontai validou a data ao inscrevê – la no programa político dos sovietes, dando ao 8 de março a honra de feriado nacional, conferindo assim a antiga União Soviética à mulher o lugar e a dignidade que ela nunca havia tido antes.
Outros países viriam a seguir as pisadas da União Soviética e passaram a conferir mais direitos à Mulher, países como a China, a França, os EUA.
Neste último, são realizadas anualmente Marchas de Mulheres.
No entanto, só em 1975 a ONU consagraria o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher, sendo o ano de 1977 o da sua consagração definitiva.
Assiste – se todavia nos tempos que correm – tempos de falsificação da História, com a ocultação de dados essenciais e a deturpação da verdade, tempos de proliferação de Fake News – à tentativa de esvaziamento ideológico dos princípios, objetivos e valores que estiveram subjacentes à instauração deste crucial dia para a dignificação da Mulher, a começar pela Mulher Trabalhadora: uma onda de comemorações irrisórias e fantoches, demasiado piadéticas para serem merecedoras de grande crédito ( ofertas graciosas de flores, caixinhas de joias, espetáculos avulsos sem qualquer manifestação de espírito reivindicativo e realizados em dias alheios ao 8 de março, data real da efeméride, etc.), procura comercializar e descaracterizar a genuína razão de ser dessa emancipadora jornada, tentando assim as forças servis do capitalismo ( homens ou mulheres, neste caso pouco importa) esbater, capciosamente, o ideário luminoso da libertação da Mulher, as suas conquistas históricas, os seus direitos inalienáveis.
Mais: na vaga de retrocesso civilizacional a que assistimos, fenómenos surgem que devem chamar a atenção da Mulher para a necessidade imperiosa de lutar para não ver esboroado tudo aquilo ( e não foi pouco) que já alcançou: deve eximir – se à violência, à violência doméstica, em primeiro lugar, recusando – a em absoluto ; deve defender os seus direitos à amamentação das suas crianças e à educação das mesmas; deve bater – se pela estabilidade de emprego, por salários dignos, horários regulados de trabalho e contra a precariedade; deve exigir os benefícios sociais a que legalmente tiver direito; deve continuar a lutar contra toda e qualquer tentativa de abolição da livre interrupção de uma gravidez anómala ou indesejada; deve denunciar a barbárie do feminicídio e pugnar pela firme condenação de quem o cometa; deve enfrentar todos aqueles que fazem do assédio o primeiro patamar para a humilhação da Mulher, mesmo que isso lhe traga prejuízos e desvantagens imediatos; deve alertar para a discriminação de que a mulher é vítima no tocante ao exercício de cargos de chefia; deve rejeitar qualquer condição de mulher – objeto, desprezando florzinhas ou outras engenhosas dádivas para a submeterem ou instrumentalizarem; deve clamar contra a sua exclusão ( ou a de outrem) de espaços públicos, só por ter alguma aleatória característica, que não seja motivo suficiente para o impedimento; deve exigir tempo para a família; deve amarrotar e deitar no caixote do lixo, desde logo, o hediondo pacote laboral com que o lodaçal do capitalismo pretende retirar direitos aos trabalhadores, e também à mulher.
Na futura sociedade dos Tempos Livres haverá mais descanso e sossego para as mulheres.
Até lá, há que lutar, lutar, lutar sempre, e mais ainda neste tempo de retrocesso e de neo – obscurantismo que procuram impor, apesar de, paradoxalmente, se assistir a um avanço técnico – científico notável .
Agir já! E esse já é o já hoje, 8 de março de 2026.
Mulheres somos todas nós, nós , que somos as Mães da Humanidade. E este é o nosso abençoado e maravilhoso dia, o dia do nosso valor, da nossa importância, da nossa dignidade.
Opinião de Natacha Fernandes (mulher, comunista, feminista e ex – candidata à Câmara Municipal de Baião)