“Mais do que um grupo de Carnaval, somos uma comunidade unida pelo futuro de Vilares”
Após vários anos de silêncio associativo, Vilares volta a afirmar-se como um lugar vivo, unido e culturalmente ativo.
A criação da Associação Cultural Recreativa Unidos por Vilares marca uma nova etapa na dinamização da comunidade local, recuperando tradições, promovendo o convívio entre gerações e projetando o nome da aldeia no concelho de Baião. Em entrevista ao nosso jornal, Anabela Pinto, presidente da associação, fala sobre a origem do projeto, os desafios iniciais e a visão de futuro para esta associação e consequentemente para Vilares.
Jornal “O Comércio de Baião” (CB) - Como nasceu a ideia de criar a Associação Cultural Recreativa Unidos por Vilares?
Anabela Pinto (AP) - A ideia nasceu acima de tudo da vontade de não deixar morrer as nossas tradições. Vilares sempre teve uma ligação forte ao carnaval, mas após uma paragem de 8 anos sentimos que faltava algo que unisse gerações e desse vida ao nosso lugar.
Percebemos que, para voltarmos com força (como aconteceu nos últimos dois anos), não bastava desfilar no carnaval, era preciso uma estrutura que nos permitisse trabalhar em conjunto durante todo o ano.
A Associação surge para oficializar esse espírito de união, transformando o esforço individual em eventos de partilha.
Hoje somos mais que um grupo de carnaval, somos uma comunidade que trabalha para que o nome de Vilares seja sinónimo de união e dinamismo.
CB - Que necessidades ou motivações levaram à constituição formal da associação neste momento?
AP - As principais motivações foram a vontade de recuperar o dinamismo do nosso lugar após 8 anos de silêncio e a necessidade de criar uma estrutura oficial que nos permitisse organizar eventos com mais qualidade e segurança.
Sentimos que Vilares precisa de um “coração” a bater todo ano promovendo a união entre vizinhos através da cultura e entreajuda.
CB- O que significa, para si, assumir a presidência de uma associação tão recente?
AP - Assumir a presidência da Unidos por Vilares neste momento é, acima de tudo, aceitar uma missão de responsabilidade e honra. Como somos uma associação que acaba de nascer formalmente, sinto que recebi nas mãos um diamante em bruto: temos toda a energia acumulada daqueles oito anos de pausa e o entusiasmo dos últimos dois anos de eventos, mas agora precisamos de transformar esse fôlego numa estrutura que dure para sempre.
Para mim, ser presidente de uma associação que ainda não tem sede significa que o meu gabinete é a rua e o meu compromisso é com as pessoas. É um desafio constante, pois estamos a construir os alicerces do zero, definindo quem somos e onde queremos chegar. Significa ser o rosto de um grupo que não quer deixar morrer as nossas raízes, garantindo que o esforço de quem se juntou a mim para reerguer o nosso Carnaval se transforme num legado sólido para Vilares.
Acima de tudo, significa acreditar que, mesmo sem paredes físicas, a nossa união é a base mais forte que poderíamos ter para fazer história em Baião.
CB - Quem faz parte do grupo fundador?
AP - O grupo fundador corresponde aos órgãos sociais, nomeadamente na Direção (Presidente: Anabela Pinto; Vice-presidentes: Rodrigo Pinto e Rita Vieira; Vogal: Armando Carneiro; Secretario: Inês Pinto). Na Assembleia Geral (Presidente: Marcelo Miranda; Secretários: José Mourinho e Ana Correia). No Conselho Fiscal (Presidente: Teresa Pinheiro; Secretarias: Marieta Mourão e Patrícia Cardoso).
Embora a lei nos peça nomes e cargos para preencher papéis, a verdade é que esta lista de órgãos sociais é pura burocracia. No papel aparecem a Anabela, o Rodrigo, a Rita, o Marcelo, a Teresa e os restantes, mas a Unidos por Vilares é feita de muita gente cujos nomes não cabem nestes formulários.
O nosso grupo de trabalho é muito maior do que qualquer estatuto. São todos os membros que aparecem para ajudar, as pessoas que dão ideias, aqueles que põem mãos à obra e todos os que, mesmo sem cargo, são o verdadeiro motor desta associação “Sem esse grupo que não está nos órgãos sociais, nós não seríamos nada”, salienta.
Para nós, o que conta é o espírito de equipa: não há 'chefes' nem 'subordinados', há apenas pessoas a trabalhar para Vilares. Assumimos estes cargos apenas para dar uma face legal ao projeto e podermos lutar por uma sede e por apoios em Baião, mas o coração da associação bate em cada braço que se junta a nós, independentemente de ter ou não o nome num papel oficial. Em suma, somos um grupo, uma família, e aqui todos são igualmente importantes.
CB - Quais são os principais objetivos da Associação nesta fase inicial?
AP - Nesta fase inicial, o nosso foco está em transformar a energia que nos trouxe até aqui em estabilidade. O objetivo número um e o mais urgente, é conquistar uma sede física. Como tenho dito, a nossa associação nasceu na rua e vive no empenho das pessoas, mas para crescermos e darmos melhores condições aos nossos sócios, precisamos de um 'porto de abrigo' em Vilares onde possamos planear o futuro.
Além da sede, o nosso grande objetivo é consolidar o calendário de eventos. Não queremos ser apenas a 'associação do Carnaval', queremos dinamizar o lugar durante todo o ano, garantindo que aquela pausa de oito anos que sofremos no passado nunca mais se repita por falta de estrutura.
Por isso, queremos fortalecer a nossa massa associativa. Queremos que todas aquelas pessoas que nos ajudaram nestes dois anos de forma informal se tornem sócias, para que a Unidos por Vilares ganhe cada vez mais peso e voz. No fundo, o objetivo é assentar os pés no chão para podermos voar mais alto e levar o nome do nosso lugar a todo o concelho.
CB - Que tipo de atividades culturais e recreativas pretendem desenvolver?
AP - A nossa estratégia passa por garantir que Vilares não seja uma aldeia de uma festa só, mas sim um lugar com pulsação durante todo o ano. O nosso plano começa com o pé direito nas Janeiras, onde fazemos questão de cantar nas nossas ruas para manter viva a tradição e o convívio entre gerações, além da participação oficial no evento do Município de Baião. Logo a seguir, mergulhamos no Carnaval, que é a nossa grande imagem de marca e que pretendemos elevar a um novo patamar de qualidade.
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A grande aposta deste ano vai ser o programa 'Verão é na Aldeia'. Durante junho e julho, o Largo do Barreiro transforma-se-á num centro cultural com Noites de Fados, Cinema ao Ar Livre, Jogos Tradicionais e Karaoke. Mas queremos ir mais longe: vamos organizar passeios para os habitantes “Vilares por Portugal”, promovendo o convívio fora de portas e reforçando os laços da nossa família. Participaremos nas Marchas de Santo António, teremos o orgulho de participar na Parada de Natal do Município, mostrando que a nossa associação é um parceiro ativo na dinâmica cultural de Baião. No fundo, queremos que todos os meses haja um motivo para os vizinhos se encontrarem e para o nome de Vilares ser levado a todo o lado.
CB - Quais foram os primeiros desafios após a constituição oficial a 19 de janeiro?
AP - Os desafios têm sido enormes, mas também muito motivadores. O primeiro grande embate é, sem dúvida, a questão burocrática. Passar de um grupo de amigos que se reunia informalmente para uma associação com existência legal exige um trabalho de 'bastidores' que ninguém vê: NIF, contas bancárias, e toda a documentação necessária para podermos, finalmente, dialogar de igual para igual com as instituições.
Depois, temos o desafio logístico, como referi, de não termos uma sede física. Como o nosso foco foi avançar logo com o plano de atividades — desde o Carnaval à Parada de Natal — gerir todo o material e as reuniões sem um teto próprio exige uma ginástica incrível da parte de todos. O nosso 'escritório' tem sido a casa da minha mãe ou as nossas próprias casas.
Mas talvez o maior desafio seja a responsabilidade. Agora que somos oficiais, as pessoas esperam mais de nós. Temos de provar que a confiança que depositaram nesta equipa vai resultar num Vilares mais vivo. Estamos a aprender a ser gestores de um sonho comunitário, garantindo que o entusiasmo que nos uniu há dois anos se transforme numa estrutura sólida que sobreviva a todos nós. É um trabalho de formiguinha, mas ver o orgulho do lugar em cada evento faz com que todo este esforço burocrático e logístico valha a pena.
CB - Que prioridades definiram para este primeiro plano de atividades?
AP - Para este nosso primeiro ano de vida oficial, as prioridades estão muito bem traçadas e focam-se em três eixos que consideramos vitais:
A primeira prioridade é a estabilidade logística. É urgente encontrarmos um espaço para a nossa sede. Como temos um plano de atividades ambicioso, não podemos continuar a depender da boa vontade das garagens e salas de estar dos nossos sócios. Precisamos de um 'porto de abrigo' em Vilares para podermos trabalhar com a dignidade que este projeto merece.
A segunda é a continuidade. A nossa prioridade é garantir que as tradições que recuperámos, como o Cantar das Janeiras porta a porta e o Carnaval, se tornem permanentes. Queremos que a população confie que, connosco, Vilares terá vida o ano inteiro, incluindo os novos passeios por Portugal que estamos a planear para levar os nossos vizinhos a conviver fora de portas.
Por fim, a união formal. Queremos que o 'grupo invisível' que nos ajudou nestes últimos dois anos se torne oficialmente sócio. No fundo, a prioridade deste ano é construir os alicerces para que a Unidos por Vilares nunca mais tenha de fazer outra pausa de oito anos. Queremos ser uma instituição sólida, transparente e, acima de tudo, útil à nossa gente.
CB - Já existem iniciativas ou eventos planeados a curto prazo?
AP - Com certeza! Nós não somos uma associação de 'esperar para ver', somos uma associação de ação. A curto prazo, o nosso foco total está no Carnaval. Como esta foi a semente que nos fez regressar após os anos de pausa, queremos que o nosso desfile seja um momento de grande orgulho e afirmação da identidade de Vilares no Município de Baião.
CB - Como tem sido a reação da população à criação da associação?
AP - A reação da população tem sido o nosso maior combustível. Sentimos que havia um vazio silencioso em Vilares, quando decidimos avançar, a resposta foi imediata. As pessoas não só apoiaram, como sentiam falta deste espírito de vizinhança.
O que mais nos toca é ver a emoção dos mais idosos quando recuperamos tradições como o Cantar das Janeiras à porta deles, ou o entusiasmo dos mais jovens que agora têm um motivo para se orgulharem da sua terra no Carnaval ou na Parada de Natal. A população tem sido incansável.
Esse apoio popular é a nossa verdadeira 'sede'. é saber que o lugar está connosco e que este projeto já não é só da direção, é de todos os habitantes.
CB - A associação está aberta à participação de novos membros? Como podem as pessoas juntar-se?
AP - A associação não só está aberta como precisa de novos membros. Queremos que aquele 'grupo invisível' que sempre nos ajudou se torne agora parte oficial desta família. Para nós, ser sócio não é apenas pagar uma quota ou ter o nome num papel; é ter voz ativa nas decisões sobre o futuro de Vilares e ajudar-nos a tirar do papel projetos como o 'Verão é na Aldeia' ou a nossa tão desejada sede.
As pessoas podem juntar-se a nós de forma muito simples, contactando qualquer membro da Direção, através das nossas redes sociais, ou até aparecer nos nossos eventos.
CB - Que papel espera que os jovens tenham neste projeto?
AP - Para mim, os jovens não são o futuro da associação, eles são o presente. O papel deles neste projeto é o de desafiadores: queremos que eles nos tragam ideias que nós ainda não tivemos, que tragam a tecnologia, modernidade e que nos ajudem a comunicar com as novas gerações.
Mas, acima de tudo, espero que eles sintam o orgulho de pertencer a Vilares. Muitas vezes, os jovens sentem que têm de sair da terra para encontrar diversão ou cultura, e o nosso papel na associação é mostrar-lhes que eles podem criar essa dinâmica aqui mesmo, na terra deles.
Na nossa equipa, a porta está sempre aberta para eles, porque sabemos que, se os jovens abraçarem a “Unidos por Vilares” agora, a associação terá vida por muitos e muitos anos. Eles são o nosso braço direito e a nossa maior esperança.
CB - Que importância têm os apoios da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal nesta fase inicial?
AP - A verdade é que, como somos uma associação muito recentemente formalizada, há apenas alguns dias, em janeiro de 2026, ainda não abordámos formalmente nem a Junta de Freguesia nem a Câmara Municipal de Baião. Temos estado focados em arrumar a nossa 'casa' interna e garantir que este grupo de fundadores esteja unido e organizado.
No entanto, esse é o nosso próximo grande passo. Sabemos que o Município de Baião valoriza muito o associativismo e, agora que temos uma identidade legal, estamos ansiosos por lhes apresentar o nosso plano de atividades. O que esperamos destas entidades não é apenas um subsídio; é que nos vejam como um parceiro ativo que já está a trabalhar no terreno.
Queremos mostrar-lhes que, mesmo sem nunca termos pedido nada, já estamos a dinamizar e a levar as tradições de Vilares em frente. Acreditamos que, quando virem a seriedade deste projeto e o apoio que temos da população, tanto a Junta como a Câmara serão aliados fundamentais, especialmente no nosso maior desafio: encontrar uma solução para a nossa falta de sede. Estamos prontos para o diálogo e muito otimistas com o que podemos construir juntos.
CB - Estão abertos a parcerias com outras associações ou instituições locais?
AP - Sem dúvida alguma. Um dos nossos lemas é que a união faz a força e isso não se aplica apenas aos moradores de Vilares, mas a todo o concelho. Estamos totalmente abertos e desejosos de criar parcerias com outras associações e instituições de Baião.
Como somos uma associação formalmente muito jovem, acreditamos que temos muito a aprender com as coletividades mais antigas, mas também muito entusiasmo e braços para oferecer em projetos comuns. Não vemos as outras associações como concorrência, mas sim como companheiros de viagem.
Queremos ser um parceiro ativo na rede cultural da região. Afinal, o nosso objetivo é dinamizar Vilares, mas se pudermos ajudar a dinamizar todo o concelho através de parcerias com escolas, juntas ou outras coletividades, faremos isso com todo o gosto.
Em Vilares, acreditamos que ninguém cresce sozinho.
CB - Onde gostaria de ver a Associação Unidos por Vilares no final do primeiro ano?
AP - No final deste primeiro ano, o meu maior desejo é ver a “Unidos por Vilares” com os alicerces bem lançados e o coração do lugar a bater forte. Sou perfeitamente consciente de que conquistar uma sede física é um processo difícil, que exige tempo, burocracia e recursos que não se arranjam do dia para a noite. Por isso, se ao fim de um ano ainda não tivermos as chaves de uma porta nossa, ficarei feliz se tivermos conseguido algo igualmente importante: o respeito e o reconhecimento das instituições e da nossa gente.
Gostaria de chegar ao final de 2026 com o nosso plano de atividades cumprido, provando que somos capazes de fazer muito, mesmo com pouco. Quero que a Câmara de Baião e a Junta olhem para nós e digam: 'Estes homens e mulheres são sérios, trabalham bem e merecem o nosso apoio para terem o seu espaço'.
O meu objetivo realista é que, no final do ano, a associação seja uma família organizada e unida, com as contas em dia e uma base de sócios sólida. Se tivermos conseguido manter a chama acesa e as pessoas de Vilares orgulhosas da sua identidade, o primeiro ano terá sido um sucesso absoluto. A sede virá com o tempo, mas a credibilidade e a união, essas têm de ser conquistadas agora, desde o primeiro dia.
CB - Que mensagem gostaria de deixar à comunidade de Vilares e Campelo? Que convite faz a quem ainda não conhece ou não participa na associação?
AP - A mensagem que deixo a Vilares e Campelo é uma palavra de orgulho. Sinto uma honra imensa em estar aqui hoje a dar o rosto por este grupo e por esta terra. Assumir este papel não é um peso, é um presente que a comunidade me deu. Ver a alegria nos olhos dos nossos vizinhos quando voltamos às ruas é a maior recompensa que eu poderia receber.
A quem ainda não nos conhece, o convite que faço é que venham sentir esta energia. Não somos apenas uma lista de nomes num papel; somos uma família que decidiu cuidar do que é nosso. Venham ao Largo do Barreiro, juntem-se aos nossos passeios ou ao nosso Carnaval. Recebemos cada um de vocês de braços abertos, porque cada pessoa que se junta a nós é mais uma força para garantir que a nossa chama nunca mais se apaga. Contem comigo, porque eu sei que posso contar convosco para fazermos história em Vilares.